
Escrito por Romina Cardozo León, Associada
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“Mantenha a distância”, “não toque no rosto”, “lave as mãos ao entrar e sair de algum lugar”, “não compartilhe seus materiais de trabalho”, “use álcool em gel”, “não toque, não toque” … Esses são os novos mandamentos na hora de sair de casa.
Os pesquisadores têm questionado a eficácia do uso de certos “estímulos” ou mesmo de obrigações legais para mudar atitudes ou comportamentos em relação à COVID-19.
Após quase um ano convivendo com a COVID-19, inúmeras campanhas de conscientização por parte do governo têm tentado garantir o cumprimento dos protocolos sanitários recomendados: redução da lotação nos estabelecimentos, disponibilidade (e escassez) geral de máscaras e álcool em gel. No entanto, parte do impasse na “divulgação” do vírus por parte das autoridades decorre da falta de reflexão sobre dois conceitos cujos significados se confundem facilmente: a consciência e a percepção.
A consciência refere-se ao “conhecimento do bem e do mal que permite julgar moralmente a realidade e os atos”. A esta altura, todos sabemos que não usar máscara é errado e que manter o distanciamento social é certo, por exemplo.
Vamos, então, dar um passo adiante. Vamos falar sobre a consciência. Esse conceito se refere à “capacidade de reconhecer a realidade ao nosso redor e de se relacionar com ela”. Ele vai além da moral entre o bem e o mal; tem mais a ver com nossa relação com o ambiente.
Dessa forma, mesmo estando conscientes e sabendo como nos comportar, podemos acabar agindo inconscientemente.
Certamente, em 2008, tendo em mente esses conceitos, os autores Thaler e Sunstein estabeleceram a “teoria do nudge” (o primeiro viria a ganhar, anos mais tarde, o Prêmio Nobel de Economia), que, diante da situação atual, pode servir como referência para definir maneiras eficazes de implementar protocolos de segurança sanitária. Mas, antes disso, vamos ver o que é um “nudge”.
Estudos nas ciências sociais demonstraram que, em muitas situações, tomamos decisões erradas — inconscientemente. Muitas vezes nos deparamos com momentos em que não conseguimos refletir cuidadosamente sobre cada escolha que fazemos e, por isso, adotamos formas de raciocínio rápido que, às vezes, nos desorientam.
Para nos ajudar a lidar com essas limitações cognitivas, Richard Thaler e Cass Sustein propõem a “teoria do empurrãozinho” (nudge, em inglês). Trata-se de “pequenos empurrões”, que buscam modificar o comportamento das pessoas de maneira previsível, sem eliminar nenhuma alternativa nem afetar o livre arbítrio, simplesmente mudando a forma como as opções possíveis são apresentadas no momento de tomar uma decisão.
Por exemplo, a maioria das pessoas escolhe automaticamente a opção “padrão” (o que ocorre quando clicamos em “aceitar” na instalação padrão de um software), portanto, a estratégia consiste em mudar a forma como a escolha é apresentada, a fim de influenciar — inconscientemente — o comportamento das pessoas, de maneira positiva, mas sem caráter obrigatório. Trata-se, portanto, de iniciativas voluntárias que buscam motivar as pessoas a seguirem caminhos que melhorarão suas vidas.
No caso de doenças transmissíveis por comportamentos universais e comuns, como é precisamente o caso da COVID-19, a resposta mais óbvia parece ser a quarentena ou o isolamento das pessoas infectadas, com o objetivo de evitar que transmitam a doença a outras pessoas. Essa solução, mais do que um “nudge”, é, na verdade, uma restrição às liberdades individuais, sob o argumento de proteger a saúde pública.
Em ambos os casos, no entanto, pode ser necessário — e mais eficiente — que as autoridades recorram ao uso de técnicas baseadas nas ciências do comportamento para tentar entender como podemos orientar a população a tomar as decisões corretas, ou para dissuadi-la de tomar as decisões erradas. Por exemplo, se pensarmos nas medidas adotadas pelo governo: a forma como devemos manter o distanciamento, lavar as mãos antes de entrar em locais públicos, etc. Essa abordagem sempre funcionou? Definitivamente, não em todos os casos. Até mesmo as restrições de quarentena são frequentemente desrespeitadas por algumas pessoas. Mas por quê?
Em primeiro lugar, cada pessoa tem sua própria “racionalidade” e um conjunto de atitudes em relação às doenças; e essas atitudes estão inevitavelmente sujeitas a uma orientação. Uma das orientações comportamentais mais comuns é a impressão de que as coisas ruins “só acontecem com os outros e não comigo”, uma orientação que se torna muito mais evidente no caso das novas doenças. Por sua vez, uma das premissas da ciência do comportamento é a “heurística da disponibilidade”, que indica que avaliamos erroneamente os riscos com base na facilidade com que imaginamos algo, e é difícil nos imaginarmos em uma situação em que estejamos contraindo uma doença que nunca vimos antes.
Em segundo lugar, as pessoas, em geral, são seres sociais que vivem em ambientes sociais. Não há comportamentos mais difíceis de modificar do que aqueles dessa natureza. Como seres sociais, buscamos a interação com outras pessoas; na verdade, precisamos dela. De acordo com vários estudos, as formas e os rituais dessa interação são resultado de um condicionamento prolongado. Os rituais de boas-vindas incluem apertos de mão, beijos mútuos nas bochechas, reverências ou a pronúncia de certas frases. Esses gestos são automáticos. Não realizá-los parece estranho; essa é a definição de hábito para um cientista do comportamento.
Infelizmente, esses hábitos, especialmente aqueles que envolvem contato físico, são vetores de infecção para agentes virais como o novo COVID-19. Então, como é possível mudar esses comportamentos?
Cass Sustein afirma que, para serem eficazes, as campanhas de comunicação e as mensagens devem seguir o modelo EAST (desenvolvido pela Behavioural Insights Team (BIT)). Esse modelo destaca a importância de: (i) Easy – as mensagens e os “nudges” precisam ser simples; (ii) Atraente – as mensagens devem chamar a atenção do destinatário; (iii) Social – devem destacar normas sociais existentes que promovam o comportamento desejado; e (iv) Oportuno – devem apresentar as mensagens no momento certo, idealmente quando a pessoa estiver mais propensa a mudar seu comportamento.
No contexto de uma pandemia, em que as pessoas já estão bastante estressadas e entediadas, é importante acrescentar a letra F a esse modelo e transformá-lo em ‘FEAST’. O F significa adicionar ‘diversão’ (Fun) à fórmula. Mensagens ou pequenas mudanças que tragam o elemento da diversão ao dia a dia podem ajudar a tornar medidas como o distanciamento físico mais sustentáveis ao longo do tempo. O governo da Nova Zelândia introduziu esse novo elemento durante a Páscoa, trazendo diversão à narrativa pública ao declarar o coelhinho da Páscoa um ‘trabalhador essencial’ e incentivando as famílias a continuarem a celebração em casa. A teoria da diversão, ou ‘fun theory’, tem sido aplicada em diferentes intervenções para mudar comportamentos. É importante considerar que um dos maiores desafios desse tipo de estratégia é conseguir manter altos níveis de “diversão e surpresa” ao longo do tempo, o que é fundamental para a sustentabilidade da mudança de comportamento.