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Um mundo sem advogados? Século XXI: Contratos Inteligentes

Escrito por Camila Colombo

Fazer apostas entre amigos sobre o resultado de uma partida entre duas equipes é algo bastante comum. Mas, sendo realistas, na hora da verdade… quantas vezes essa “aposta” é cumprida? A verdade é que um dos dois não tem o dinheiro ou simplesmente não quer cumprir. Embora essa não seja uma situação que, em princípio, acarretaria consequências jurídicas, há outras que sim. Por exemplo, deixar a entrega de um bem a cargo de um terceiro ou confiar a um advogado a entrega de uma herança aos herdeiros após a morte do falecido.

Nessas situações, precisamos confiar em terceiros que atuam como intermediários. Pode ser um amigo, um advogado ou um tabelião, que, em casos mais formais — nos quais ocorre a entrega de uma quantia em dinheiro ou de um bem a um terceiro —, cobram honorários profissionais pelo seu trabalho. Isso implica não apenas mais despesas, mas também depositar confiança de que o contrato será cumprido.

Ora bem, o que aconteceria se esses intermediários não fossem mais necessários? Essa foi a ideia do cientista da computação Nick Szabo, ao criar os smart contracts (contratos inteligentes), os quais são implementados em formato digital e codificados de forma que não seja necessário recorrer a terceiros para sua execução. Nesta nova era digital, em que a tendência atual gira em torno de blockchain e bitcoin, vamos agora dar uma olhada nos contratos inteligentes.

As origens… como surgem os contratos inteligentes?

Para falar sobre o surgimento dos contratos inteligentes, é necessário, em primeiro lugar, compreender as novas tecnologias que estão se impondo em nosso mundo atual: blockchain e criptomoedas. Embora existam muitos artigos que abordam esses conceitos e seu funcionamento, um breve resumo sobre essas tecnologias não é de se descartar. Na verdade, isso é necessário para entender o funcionamento desses novos tipos de contrato.

Nick Szabo desenvolveu o conceito dos contratos inteligentes Há quase vinte anos, mas ainda não contava com a infraestrutura tecnológica necessária para implementar a ideia. O objetivo era levar o direito contratual para o ambiente digital, o que permitiria o comércio eletrônico sem a burocracia habitual de um contrato. Mas, para que isso pudesse acontecer, era necessário contar com uma plataforma de transações programáveis e um sistema financeiro que as reconhecesse. Em 1997, tanto a plataforma quanto o sistema financeiro mencionados ainda eram inexistentes.

No entanto, em 2009 surgiram as criptomoedas, que nada mais são do que um meio digital de troca. A primeira criptomoeda a entrar em operação foi o “Bitcoin” (moeda virtual), na esteira da crise econômica, com o objetivo de substituir o dinheiro comum. Ela cumpre a função de uma moeda e garante a segurança, a integridade e o equilíbrio dos balanços contábeis.

“O ”blockchain” (cadeia de blocos), por sua vez, surgiu a partir do Bitcoin, que sustenta toda a estrutura desse fenômeno. O blockchain é um banco de dados compartilhado (on-line) utilizado como registro das transações. É como uma planilha do Excel ou um livro-razão onde são registradas as entradas e saídas das transações de uma empresa. Nesse banco de dados, não é possível apagar, alterar ou modificar informações, apenas adicionar novos registros. É bastante seguro e, como as informações são criptografadas, o anonimato é garantido. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, considera-se provável que 10% do PIB mundial esteja armazenado na blockchain até o ano de 2027.

Nesse contexto, o conceito de contratos inteligentes Funciona como um software que, por meio da tecnologia Blockchain (na qual, como já foi mencionado, registra todas as transações realizadas: nomes dos participantes, datas importantes, valores monetários e operações), utiliza e registra os dados em um contrato inteligente. Com esses dados e a programação adequada, o contrato é executado automaticamente. Por exemplo, em um acidente de trânsito, as partes envolvidas estariam vinculadas às suas seguradoras, que acionariam a ordem para constatar que ocorreu um acidente, e por meio de um contrato inteligente (onde constam todos os dados necessários), o ocorrido seria processado e notificado ao banco, que também estaria conectado à blockchain; dessa forma, seria efetuado o pagamento da multa correspondente.

O que são os smart contracts (contratos inteligentes)?

Um contrato é um acordo entre duas ou mais partes, sujeito às leis da jurisdição competente. Na maioria dos casos, em situações de inadimplência, é necessária a intervenção de um advogado e do órgão jurisdicional para exigir o cumprimento. Isso implica despesas e tempo para as partes. Os contratos inteligentes Elas não alteram nem acrescentam nada à elaboração do contrato; o que buscam é reduzir custos na fase de execução, em caso de inadimplência.

A ideia com os contratos inteligentes consiste em dispensar os intermediários (árbitros, advogados, juízes) e fazer com que os contratos sejam autoexecutáveis, de forma autônoma e automática. Dessa forma, o processo seria simplificado e os custos para o cliente seriam reduzidos, além de garantir o cumprimento efetivo do contrato. Nesse cenário, portanto, não seria mais necessário recorrer à assistência de um advogado.

Mas… como é que eles realmente funcionam?

Os contratos inteligentes contêm códigos de computador escritos em linguagens de programação. Os termos do contrato são meras instruções e comandos no código que o compõe. Eles não dependem de autoridades nem de intermediários para serem executados e, por se basearem na cadeia de blocos mencionada anteriormente, os contratos se tornam um código visível para todos. Dessa forma, garante-se que não ocorram fraudes ou intervenções de terceiros que queiram alterar as informações. Como se trata de um sistema que vem sendo implementado gradualmente ao longo do tempo, por enquanto os contratos inteligentes só podem ser aplicadas a transações de bens digitais (entrega de mercadorias, venda de ingressos…)

Voltando ao exemplo usado no início, suponhamos que, em uma partida de futebol, Juan aposte uma determinada quantia na vitória do time A e José aposte a mesma quantia na vitória do time B. O contrato seria formalizado no formato de um contrato inteligente. O software verificaria se ambas as partes dispõem do dinheiro e reteria esse valor até que o contrato fosse cumprido. Assim que a partida terminasse, seria verificado quem foi o vencedor, o dinheiro apostado seria atribuído a ele e o contrato seria liquidado.

Em que áreas elas poderiam ser aplicadas?

Os contratos inteligentes Poderiam existir várias aplicações. Por exemplo, esses contratos poderiam ser utilizados em empréstimos. As informações sobre garantias imobiliárias poderiam ser armazenadas em um contrato inteligente, na blockchain; no momento em que o devedor deixar de efetuar o pagamento, as chaves digitais que lhe dão acesso a essas garantias poderiam ser revogadas automaticamente.

Também poderiam ser utilizadas em casos de herança e doações. Essas transações seriam executadas, por exemplo, após o atingimento da maioridade. No caso de se desejar realizar uma transferência de titularidade de um bem em uma data específica ou quando determinadas condições forem atendidas.

Atualmente, uma das funções que ela desempenha é a utilização da “multifirma”, que permite que duas ou mais partes tenham a obrigação de aprovar uma transação antes que os fundos possam ser liberados ou que algum outro aspecto do contrato possa ser executado.

Vantagens e desvantagens.

Como já foi mencionado anteriormente, uma grande vantagem dos contratos inteligentes é que os intermediários e o pagamento de seus respectivos honorários profissionais não seriam mais necessários. Além disso, o contrato não daria margem a atrasos em relação ao prazo estipulado para a execução, uma vez que a ação é realizada de forma automática.

Graças à blockchain, o contrato é registrado e armazenado na rede. Isso evita o extravio ou o roubo do documento, o que poderia ocorrer com a impressão do contrato em papel.

No entanto, embora os contratos inteligentes Embora isso facilitasse bastante o processamento e a redução de custos, ainda existem obstáculos que atrasam a consolidação desse fenômeno. Conforme já indicamos, as informações registradas no blockchain não podem ser excluídas nem modificadas. Ou seja, uma vez assinado o contrato, não é possível fazer alterações, mesmo que as partes estejam de acordo. O programa seria executado automaticamente, de acordo com o estipulado originalmente.

A falta de legislação na maioria dos países também é um problema para a implementação desse sistema; sem respaldo legal, as partes ficam céticas em relação ao uso de novas tecnologias.

Então, afinal… chega de advogados?

Embora a ideia de um mundo sem advogados seja o sonho da grande maioria, essa ainda é uma ideia utópica, pelo menos por enquanto. É verdade que os contratos inteligentes Embora esses intermediários fossem eliminados na fase de execução do contrato, a elaboração e a interpretação do contrato ainda exigem especialistas em direito, ou seja, os advogados.

No entanto, a integração do mundo digital com o jurídico representa uma evolução no âmbito jurídico. Esse novo modelo contratual, sem dúvida, mudará o panorama dos negócios e da sociedade como a conhecemos; ajudará substancialmente as empresas, essencialmente na economia de custos milionários incorridos atualmente no momento da contratação.

Ainda há muito a ser analisado sobre esse novo sistema, mas ele já nos dá uma visão do futuro que se aproxima; a tecnologia está em constante evolução e não devemos ficar para trás. Diante dessa nova realidade, é importante lembrar as palavras de Albert Einstein: “Ficou terrivelmente óbvio que nossa tecnologia superou nossa humanidade”; Vamos torcer para que não seja assim.

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